sexta-feira, 14 de agosto de 2009

'Guspe'

Por Ariovaldo Izac

Um dia, sei lá quando, um gaiato começou a desejar boa sorte para um jogador de futebol do time adversário e a moda pegou.
O problema é que boleiros profissionais e amadores ainda não se deram conta da demagogia do bordão. Ainda bem que falam inconscientemente. Desejar boa sorte ao adversário é projetar que saia satisfeito, com a vitória.
Ah, mas podem afirmar que a boa sorte desejada é para que o adversário não se machuque. Aí, meu caro, não é uma questão de sorte. Aproveite as habituais orações que precedem jogos e peladas de futebol para, mentalmente, pedir ao Criador que proteja indistintamente todos os envolvidos na porfia. Gostou do termo porfia? É obsoleto. Pra quem não sabe, é sinônimo de partida.
Veja outro despropósito: um homem aparentando pouco mais de 40 anos de idade, com traje de executivo, caminha distraído ao lado de duas mulheres, provavelmente companheiras de trabalho.
Distraído porque os braços se cruzam nas costas e, entre as mãos, carrega um aparelho celular sofisticado. Claro que a posição favorece bastante o delinqüente e, por sorte, só pessoas de bem andaram ao seu redor, e saiu ileso no percurso até um restaurante.
O erro crasso chamou mais atenção que a exposição do celular. Na conversa com as moças, sobre papéis mal colados, saiu com essa “pérola”: “Acho que colaram aquilo com ‘guspe’.
Ah, doeu os tímpanos. ‘Guspe’ é demais para alguém que passava facilmente por executivo, com camisa social de linho. Portanto, mais uma vez prevalece o velho dito de que “quem vê cara não vê coração”. Ou não julgue uma pessoa apenas pela aparência. Quantos e quantos barbudos e maltrapilhos sabem muito bem usar metáforas de Rui Barbosa em conversas informais!
Já que o tema é ortografia, de fato não dá pra engolir essa reforma ortográfica que suprime o acento agudo em ditongos decrescentes como idéia, bóia, etc... A sílaba tônica é tão característica que fica sem graça não ser acentuada.
E por falar em bóia, dias atrás lembrei do sentido figurado ou metafórico que representava: comida. “Tá na hora de pegar a bóia”, dizia um operário da construção civil para um companheiro de obra.
Como você percebeu, abusivamente insisto em ainda acentuar os ditongos decrescentes. E vou agir assim até o último prazo para a adoção integral da reforma ortográfica, ou quando editores em consonância com a linha editorial do veículo de comunicação exigirem correção nos textos.

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