Dizem que bar também é cultura e desminta aí se puder. Em mesa de bar tudo acontece. Da mesma forma que você torce o nariz para as inconveniências de bêbados, se delicia com a bebida da sabedoria de pensadores e se saboreia com histórias do ‘arco da velha’.
De repente, entre um gole e outro de cerveja e outras ‘cositas' mais que queimam a goela, alguém sugere uma discussão sobre a atual geração de crianças e adolescentes comparada àquela vivida há mais de 40 anos. Primeiro a dissertação sobre estudos de psicologia indicando que as emoções de outrora não se diferenciavam das atuais, embora os costumes sejam diferentes.
Claro que o assunto rende comentários efervescentes da velha guarda, a maioria julgando que as gerações do passado viviam sucessivas emoções, que elas se caracterizavam com mais intensidade. Exemplos ilustrativos não faltam. Lembram que antigamente o moleque atingia o topo de uma árvore numa velocidade significativamente maior. Citam que a habilidade para se trançar os pés entre galhos era incomparável. Desenterram a obsoleta brincadeira de ‘soldado e ladrão’, quando o grupo dos ladrões desaparecia literalmente do posto central sem deixar pistas aos soldados até altas horas da noite. Recordam a astúcia para driblar antigos cobradores de bonde na cobrança de tarifa, assim como a capacidade para conviver com malandros sem absorver o mau exemplo de delinqüir.
Evidente que cada um dos saudosistas recapitulou experiências com brincadeiras de infância e adolescência. Naturalmente as principais lembranças canalizaram no prazer de se correr atrás de bola em campos de terra, por vezes esburacados. As peladas pareciam intermináveis nos finais de semana. Começavam no sábado à tarde e se prolongavam nas manhãs e tardes de domingo. E os ‘fominhas’ ainda cobravam uma vaguinha no cascudão.
Claro que nessa viagem ao passado foram recordados costumes, modos e comportamentos. Difícil explicitar quão delicioso foi reviver os tempos do modismo da calça ‘boca de sino’, sapato bico largo e salto médio, tamanco, mini blusa agarrada - que expunha a barriguinha do sujeito -, e camisa anarruga. A rigor, na época não faltavam espirituosos para definição de gírias que identificassem calça, camisa e sapato como beca, peita e bute, respectivamente. Também plagiava-se roqueiros com uso de cabelos soltos nos olhos, se lisos, ou volumosos, se crespos. E que adesão à vasta cabeleira black power! Garfos de madeira desembaraçavam os cabelos enroladinhos, na incontrolada busca do garoto pela notoriedade entre a mulherada, principalmente nos bailinhos em casa de família, embalados por samba e rock in rool. As músicas eram tocadas em aparelhos de som da inconfundível marca Sonata, em discos vinil, alguns deles avariados por agulhas que enroscavam e exigiam do sonoplasta um toque sutil na alça para fluxo da melodia.
Na época a cerveja estupidamente gelada não era a bebida preferida de consumo dos adolescentes. Rolava muita cuba livre, menta, leite de camelo e rabo de galo. Esses ingredientes ajudavam o jovem a vencer a timidez e injetavam coragem na tentativa de se convencer a estranha dama para a chamada ‘contra dança’. A hipótese de recusa era sempre a mais viável, e esse comportamento era definido como ‘tábua’. Claro que a ‘vítima’ era alvo de gozações dos colegas.
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