segunda-feira, 5 de abril de 2010

Chove ou faz sol?

Convenhamos que morder os lábios de raiva é o mínimo do comportamento humano quando se mira toda ira contra institutos de meteorologia pela ‘barca furada’ que nos colocaram neste feriado prolongado de sexta-feira santa. Você programou um baita passeio por conta de projeções que lhe passaram de temperatura em elevação e dias sem chuva. Na prática, a constatação foi de chuvarada e dias jogados no lixo.
Há muito já devíamos ter aprendido a lição de não confiar em tais previsões, sempre com margem exagerada de erro. Trouxa que somos, entramos pelo cano mais uma vez. Quiçá criamos juízo e começamos a tapar os ouvidos quando a mocinha do tempo falar na televisão. A rigor, veículos de comunicação deveriam rever conceitos editoriais de valorizar tais informações enquanto incertas. Por que não condicionam divulgação do tema quando a fonte fizer investimentos maciços em avançadas tecnologias, que permitam projetar com segurança as reais condições do tempo?
As previsões otimistas informadas antes do feriadão estimularam as pessoas a colocarem os veículos nas rodovias. E quem sonhou com bronzeamento na praia, água de coco gelada e banho de mar se deu mal. Viu o céu carrancudo e aquele chuvisco contínuo, desanimador. A opção de fugir do apartamento em busca de liberdade fracassou. A troca foi de um cubículo pelo outro.
Que frustração! Pior quando você começa a contabilizar o prejuízo que provocaram: aluguel do apartamento ou casa, refeições, abusivas tarifas em número excessivo de praças de pedágio, custo de combustível, óleo de motor e câmbio, manutenção prévia do veículo, etc. Acrescenta-se, também, a previsível infinidade de automóveis no trajeto, resultando em monstruosos congestionamentos. Haja paciência e sem recompensa!
Cabe a reafirmação de que veículos de comunicação são co-responsáveis pelas desencontradas informações de tais institutos e, por isso, deveriam se preocupar mais com a credibilidade da informação. Como é utopia esperar que releguem esses serviços, pelo menos que sejam precavidos e projetem todas as informações no condicional, alertando para tais imprevisibilidades. Por sinal, desconfie quando atribuem culpa ao acaso. Satélites de última geração projetam mapeamento praticamente infalíveis daquilo que vai acontecer de um dia para o outro, orientando populações de países do primeiro mundo como se proceder para minimizar efeitos de fenômenos naturais como furação, tufão, tempestade tropical e que tais.
Há um relato, há dez anos, da precisão de institutos de meteorologia do Canadá. O fato se deu na bucólica cidade de Quebec, quando um grupo de jornalistas brasileiros se surpreendeu com a guia turística recomendando uso de galochas em visita agendada a uma fazenda de cultivo de uva. Por que? Porque havia previsão de chuva fina e intermitente das 7h às 17h no dia seguinte.
Claro que a sacada galocha foi pejorativa. Aquela venezuelana, que sabia se virar bem com o seu portunhol, simplesmente alertava que os sapatos seriam tingidos de barro após pisoteio no lamaçal das plantações, e não houve contestação. Dito e feito. Exatamente às 7h10 começou o chuvisqueiro que só parou pouco antes das 16h30. Que previsão! Ou melhor: que relatório infalível! Será que os perfeccionistas diriam que houve um errinho de meia hora para o início do período de estiagem?
Perceberam a diferença de metodologia aplicada na mediação de tempo e temperatura em países de primeiro mundo? É que investem pesado em equipamentos sofisticados. Conceituam como política pública de prevenção avisos sobre qualquer fenômeno natural. Se não há como evitar a devastação que provoca, varrendo povoados, pelo menos cabe o alerta às pessoas para que deixem seus domicílios e salvem o que puder, enquanto houver tempo.
No Brasil, país emergente, conceituações do tipo “quem manda a chuva é Deus” e fenômenos naturais são imprevisíveis servem para manipular incautos. Não apostem eternamente nisso. O povo brasileiro, agora inserido quase na totalidade no mercado de consumo, está se educando e aprendendo, como consumidor, a cobrar seus direitos. Portanto, não estranhem se futuramente alguém procurar serviços de defesa do consumidor para requerer reparação de prejuízos provocados por desinformação sobre tempo e temperatura. Gozação? Piada? Pode ser que sim até o dia em que um juiz entender como procedente a reclamação. A partir daí cria-se uma jurisprudência. Então, como ficamos?
Para os céticos de plantão um lembretinho: chegou o dia em que um jogador de futebol, irritado com críticas ásperas recebidas, julgou-se injustiçado e procurou o caminho da Justiça para requerer indenização por suposto prejuízo financeiro na carreira. Aguardemos a sentença.

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