quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Antes da morte

Este texto foi produzido inicialmente em formato manuscrito, em cadeira de hospital de Campinas, três dias antes da morte de minha mãe, Antonia do Carmo Izac, e agora resolvi reproduzi-lo.


Domingo, 21 de novembro de 2004, 16h. É horário de visita a pacientes do Hospital Samaritano, em Campinas, e um punhado de parentes e amigos de internados se prostram na sala de recepção e começam a se distribuir, dois em dois, para os respectivos leitos.
A octogenária Antonia do Carmo Izac, ocupante do primeiro leito do quarto 14, ala A, continua agonizando, tenta balbuciar, mas em vão.
Meia hora após o início do período destinado aos visitantes chegam ao citado quarto sua cunhada conhecida apenas por Linda e a sobrinha Mara. Linda, desinformada do estado de saúde da paciente, carrega um embrulho com frutas e se surpreende ao constatar a paciente entubada.
A cunhada ainda força o diálogo, toca, belisca a paciente e a resposta se restringe a gemidos de quem agonizava após ter sido vitimada por um AVC (Acidente Vascular Cerebral).
Linda ainda se preocupa com o tempo de duração da visita, temendo prejuízo a outros visitantes, mal sabendo que poderia ocupar o restante do tempo permitido. Afinal, o serviço de recepção do hospital não havia registrado sequer uma procura pela paciente em questão.
Sinal de outros tempos. Sinal que as pessoas já não têm aquele apego de outrora. Sinal que velhos amigos e parentes já não se preocupam com a saúde alheira.
A saúde fragilizada da paciente indica a iminência da partida e, de certo, durante o transcorrer do velório, amigos e parentes vão cumprir o velho ritual de prestar condolências à família enlutada, e não dispensarão a formalidade de assinatura no formulário elaborado pela agente funerária.
É assim. Esse é mais um claro exemplo do “faz de conta”. Então, faz de conta que aqueles que esqueceram da velha Antonia agonizando em leito hospitalar estarão sentindo sua morte ao redor do caixão.

Um comentário:

david santos disse...

Olá, Ariovaldo!
Nossa mãe! Nossa mãezinha! Para sempre a teremos no coração. Ainda que a vida, esta que não presta, dure milhões de anos.
Nossa mãe, nossa mãezinha.
Abraços.