sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Comunicadores do passado

Em 1979 o saudoso radialista campineiro Renato Silva apresentava um programa musical em sua cidade, na Rádio Brasil, e durante as duas horas diárias no ar fazia questão de repetir aos ouvintes que as atrações naquele espaço eram ele e cantores do tipo Benito de Paula, Tim Maia e Roberto Carlos, entre outros.

O coração generoso de Renato Silva parou de bater há mais de uma década, mas ficou uma história de criatividade e caracterização do homem de rádio. Cada programa era finalizado com ‘sacadas’ sarcásticas. Um dia retratava a indesmentível realidade da ‘barata vida que não atravessa galinheiro’. Outro dia, num característico desfecho, citava que ‘quem beijou, beijou; quem não beijou não beija mais. Feche o caixão e siga o enterro’.

Cabe o registro do espirituoso Renato para se traçar comparação com uma geração de profissionais de rádio e televisão sem balanço, sem tempero e que mal lê o script. São derrapadas outrora inadmissíveis. São profissionais robotizados, desprovidos da indispensável inflexão do homem de rádio.

Quanta mudança na comunicação eletrônica! Quanta saudade de criativos e até atrevidos apresentadores de programa de televisão. Quem ousa, hoje, cometer a insensatez de quebrar o disco do cantor na ‘cara’ dele, como fazia o irreverente Flávio Cavalcante? E mais: até para anunciar intervalos do programa adotava o gesto característico de levantar o dedo indicador, e após breve pausa dizia: “Nossos comerciais por favor”.

Se até a década de 80 Flávio Cavalcante invadia lares brasileiros através do tubo de televisão, o jornalista Ferreira Neto se manteve no ar durante 37 anos, até 2002, quando faleceu. É atribuído a ele o pioneirismo em debates na televisão de candidatos a cargos públicos. Exceto a Rede Globo, Ferreira passou pelos principais veículos de São Paulo e criou o imaginário personagem ‘Leo’, com quem simulava um diálogo ao telefone. Na ocasião abordava temas da atualidade, principalmente sobre política e economia. O tal telefone vermelho tocava a cada início de programa e o conservador Ferreira geralmente destinava seu veneno contra o PT anarquista da época. Parecia até que o amigo Léo entendia e concordava com quase tudo. Depois da introdução, o jornalista deixava o circo pegar fogo literalmente, nas ásperas discussões de correntes antagônicas.

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