domingo, 23 de janeiro de 2011

Sexo anal

Numa daquelas intermináveis noites de insônia, ano passado, tendo a televisão como companhia, deparo-me com o apresentador Jô Soares, da Rede Globo, polemizando sobre o sugestivo tema sexualidade com o seu convidado (não me recordo o nome), e aí o sono fugiu de vez.

Com a habitual irreverência, Jô Soares viajava no tempo e lembrava de décadas entre 50 e 70 em que a adolescente preservava a virgindade para o casamento, sem contudo deixar de se relacionar sexualmente. Várias moças admitiam a prática do sexo anal com o namoradinho ou paquera, na vã ilusão que assim continuavam preservadas.

Rapazes da época descriminavam mulheres que perdiam virgindade antes do casório e evitavam namorá-las. A maioria fazia questão de conferir se o hímen havia sido rompido, e após certificar o ‘ lacre’ intacto dava continuidade ao namoro.

Evidente que o fulano sequer considerava a hipótese da parceira ter-se relacionado com outro homem praticando sexo anal. Assim, ela podia fingir que estava tudo certo e ele igualmente ignorar que havia algo errado.

Pô, Jô Soares. Cada detalhe que você coloca em discussão, hein!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Comunicadores do passado

Em 1979 o saudoso radialista campineiro Renato Silva apresentava um programa musical em sua cidade, na Rádio Brasil, e durante as duas horas diárias no ar fazia questão de repetir aos ouvintes que as atrações naquele espaço eram ele e cantores do tipo Benito de Paula, Tim Maia e Roberto Carlos, entre outros.

O coração generoso de Renato Silva parou de bater há mais de uma década, mas ficou uma história de criatividade e caracterização do homem de rádio. Cada programa era finalizado com ‘sacadas’ sarcásticas. Um dia retratava a indesmentível realidade da ‘barata vida que não atravessa galinheiro’. Outro dia, num característico desfecho, citava que ‘quem beijou, beijou; quem não beijou não beija mais. Feche o caixão e siga o enterro’.

Cabe o registro do espirituoso Renato para se traçar comparação com uma geração de profissionais de rádio e televisão sem balanço, sem tempero e que mal lê o script. São derrapadas outrora inadmissíveis. São profissionais robotizados, desprovidos da indispensável inflexão do homem de rádio.

Quanta mudança na comunicação eletrônica! Quanta saudade de criativos e até atrevidos apresentadores de programa de televisão. Quem ousa, hoje, cometer a insensatez de quebrar o disco do cantor na ‘cara’ dele, como fazia o irreverente Flávio Cavalcante? E mais: até para anunciar intervalos do programa adotava o gesto característico de levantar o dedo indicador, e após breve pausa dizia: “Nossos comerciais por favor”.

Se até a década de 80 Flávio Cavalcante invadia lares brasileiros através do tubo de televisão, o jornalista Ferreira Neto se manteve no ar durante 37 anos, até 2002, quando faleceu. É atribuído a ele o pioneirismo em debates na televisão de candidatos a cargos públicos. Exceto a Rede Globo, Ferreira passou pelos principais veículos de São Paulo e criou o imaginário personagem ‘Leo’, com quem simulava um diálogo ao telefone. Na ocasião abordava temas da atualidade, principalmente sobre política e economia. O tal telefone vermelho tocava a cada início de programa e o conservador Ferreira geralmente destinava seu veneno contra o PT anarquista da época. Parecia até que o amigo Léo entendia e concordava com quase tudo. Depois da introdução, o jornalista deixava o circo pegar fogo literalmente, nas ásperas discussões de correntes antagônicas.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Piadinha de hyper game

Infelizmente uma importante rede de televisão - sabe-se lá por que razão - permite que se insira em sua programação um quadro no mínimo questionável, caso do hyper game.

O formato do programa é colocar na tela um quebra-cabeça com letras embaralhadas, de forma que o telespectador possa ordená-las para formar uma palavra. Claro que um(a) apresentador(a) comunicativo incita as pessoas a participarem do jogo.

Através dos convencionais toques no controle eletrônico da TV, cheguei a tal programação na manhã deste 2 de janeiro. Na ocasião vi um morador de Campinas ganhar R$ 1 mil ao acertar a palavra Alejandro em pouco tempo, e o fato provocou curiosidade.

Quis observar novos desafios aos telespectadores e deparei-me com um ilustrado diagrama quadrado de três letras dispostas verticalmente e três na horizontal, anulando-se uma delas porque a palavra procurada continha oito letras.

O jogo indicava que a palavra correta era Maurício, e bastaram dois minutos para que chegasse à conclusão. Ingenuamente me aventurei a ligar para o número indicado, de telefonia móvel e de São José dos Campos. O atendimento programado foi de secretária eletrônica, com preâmbulo sobre as regras do jogo. Foi explicado que inicialmente teria que me submeter a uma sabatina de conhecimentos gerais, que condicionava a participação ao vivo no citado programa caso tivesse a melhor pontuação entre os concorrentes. As três primeiras perguntas se concentraram sobre esporte e respondi de imediato como falsa a afirmação de que o técnico Luiz Felipe Scolari foi tetracampeão brasileiro na Copa do Mundo de 1994, e igualmente falsa a vinculação do atleta Robinho ao clube espanhol Real Madrid. Citei como verdadeira a pergunta sobre o título mundial conquistado pela Seleção Brasileira de Futebol no Chile em 1962. Depois confirmei que o tomate se enquadrava na classificação dos frutos e parei. Constatei que as perguntas se multiplicariam, projetei a perda de um tempão com perguntas intermináveis, imaginei-me envolvido em uma pegadinha que elevaria minha conta de telefone fixo às nuvens e aí minha ficha caiu. Como convém àqueles que percebem manobras, bati o telefone, sem contudo mudar de canal.

A mocinha animadora do programa mantinha a estratégia de flertar incautos para ligarem no número de celular exibido na tela. E dá-lhe ligações! Só meia hora depois ‘botaram’ no ar um paulistano para citar o nome correto da palavra, com o compromisso de premiá-lo em R$ 2 mil.

Claro que no churrasco familiar da tarde coloquei o assunto em pauta, sem que a maioria se surpreendesse. Um de meus irmãos confessou ter ficado preso na linha telefônica dos organizadores deste jogo por mais de uma hora, recentemente. Indignado, afirmou ter acertado mais de 90% das perguntas formuladas, sem que fosse selecionado para responder a pergunta indicada no ar.

Parece que o tal hyper game me persegue. Castigado pela terrível insônia na madrugada do terceiro dia de 2011, e brincando com o sobe e desce do controle eletrônico da TV, novamente deparei com a mocinha do dia anterior induzindo o telespectador para o manjado jogo. Pior: ganhou a companhia de um rapaz igualmente comunicativo, que mostrava na tela uma espécie de pirâmide com as letras r, d, o, r, o, e, n, b, z e a. Aí, ambos lançaram o desafio para descobrirem qual a palavra seria formada com aquelas letras.

Depois de um tempo, como se tivessem dando ‘lambuja’ ao telespectador, indicaram a pista da palavra informando que ‘tem na praia’. Pronto. Foi o suficiente para matar a charada. A palavra em questão era bronzeador, e nem por isso colocaram no ar algum ‘sujeito’ para a resposta. Irritava a capacidade de extrapolar da mocinha: “Se você não ligar, não merece nada. Merece vaia, como a minha diretora”.

Foi a gota d’água. Depois de mais de uma hora de enrolação, desliguei a televisão. Felizmente logo em seguida comecei a roncar, citam testemunhas. E quem ficou acordado?