André Esmeriz, que herdou do avô Pereira Esmeriz a boa veia jornalística, intima-me a escrever um artigo sobre Pelé. Pede que eu descreva os 70 gols mais bonitos da carreira do aniversariante neste 23 de outubro. Retruco no mesmo e-mail que lembraria, se muito, uns 15 gols especialíssimos do ‘rei’. No mesmo arquivo - aquele que vai e volta sem cessar - André lamenta e reafirma que a descrição dos 70 gols seria a melhor pauta sobre esse senhor septuagenário.
Que tal, André, reformularmos a pauta? Que tal a gente lembrar do gol mais preocupante da carreira de Pelé?
- Preocupante? Como assim? - podem questionar. E quem supõe que o gol mais preocupante foi o milésimo, por causa da demora para acontecer, se equivocou. Pelé sabia que ora mais, ora menos ele sairia. Foi em 1969, no Estádio do Maracanã, contra o Vasco do goleiro Andrada, e numa cobrança de pênalti.
Presumo que o gol mais preocupante de Pelé foi no Estádio Brinco de Ouro no dia 3 de dezembro de 1967, no empate em 1 a 1 com o Guarani. Edu Jonas, ponteiro-esquerdo franzino e com 17 anos de idade na época, levou a bola ao fundo do campo do ataque santista e cruzou a meia altura, com força, para o interior da grande área. Acreditem: Pelé voou literalmente ao encontro da bola. Traçou trajetória paralela ao gramado, na horizontal, e acertou uma cabeçada fulminante, sem chances de defesa para o goleiro Dimas. Aí, ele - como dizia o narrador de televisão Valter Abraão - não conseguiu se desvencilhar da trave esquerda do gol bugrino e o choque foi inevitável.
Como Pelé ficou desacordado alguns minutos, informações sobre o seu estado de saúde eram desencontradas, suspeitando-se até que teria morrido. Adeptos do ‘chutômetro’ diziam que bateu a cabeça na trave. Outros amenizavam citando que o ombro havia sido atingido. Ufa! Foi um alívio quando conseguiram levantar o ‘camisa dez’ mais famoso do mundo. Embora ‘grogue’, estava de pé. Aquilo era um indício de que o pior já havia passado.
Pode-se dizer que Deus foi generoso com Pelé naquele acidente. Felizmente quem projetava gramados ainda não havia optado por traves com barras redondas de ferro. Naquele período usavam traves de madeira, cujo impacto num choque de atleta é relativamente menor, se comparado ao modelo de ferro.
O gol do Guarani naquele Paulistão foi marcado pelo meia Milton dos Santos, num frangaço do goleiro Gilmar. Foi um chute do ‘meio da rua’, como ainda dizem narradores de rádio.
Quando Milton dos Santos é citado, logo lembra-se do mais duro golpe que sofreu na vida e fora de campo. Décadas passadas, sua esposa foi covardemente assassinada durante assalto, defronte a um colégio na área central de Campinas. Depois disso não teve o mesmo estímulo para prosseguir na carreira de treinador.
Deus reservou a Pelé a dádiva para aplicar com sabedoria todos os fundamentos do futebol. Quando ficava na ‘cara’ do gol, o chute saía colocado, o suficiente para evitar o alcance do goleiro adversário. De média distância, colocava força e direção na bola. Embora destro, usava a perna esquerda com a mesma regularidade. Fazia gols de falta e exibia ao mundo a amaldiçoada paradinha nas cobranças de pênaltis.
O drible era precedido de uma boa gingada, e geralmente aplicado no pé ‘bobo’ do zagueiro. O passe tinha endereço certo, quer nas tabelinhas com os centroavantes, quer na bola alongada. O aproveitamento no jogo aéreo era acima da média. Qual atacante com estatura equivalente a 1,71m de altura o superava no quesito impulsão? Talvez nenhum. E Pelé cabeceava com os olhos abertos, tirando do goleiro. Foi assim na Copa do Mundo de 1970, no México, quando deixou o goleiro Albertosi, da Itália, sem ação, e abriu o placar da goleada brasileira por 4 a 1, no jogo do tricampeonato mundial.
Naquela Copa Pelé protagonizou lances inesquecíveis. Contra a extinta Tchecoslováquia, ao perceber o goleiro Ivo Viktor adiantado, arriscou um chute do meio do campo e a bola passou a centímetros da trave. Contra a Inglaterra, acertou uma perfeita cabeçada, mas o gol ficou engasgado. O goleiro Gordon Banks praticou uma das mais brilhantes defesas de todos os tempos do futebol mundial. Saltou no chão e rebateu.
Pelé honrou a coroa de jogador do século passado após a primeira Copa do Mundo, em 1958. Que garoto com 17 anos de idade tem a ousadia de ‘chapelar’ zagueiro adversário dentro da área antes de finalizar e marcar mais um gol brasileiro na finalíssima contra a Suécia?
Quando indagado sobre o gol mais bonito da carreira, Pelé cita aquele marcado contra o Juventus, na Rua Javari, no dia 2 de agosto de 1959, na vitória santista por 4 a 2. Ele aplicou chapéu em quatro adversários, o último deles sobre o goleiro, e só escorou a bola de cabeça com o gol vazio. Parafraseando o intérprete Jorge Bem Bor em letra da música que homenageou o ex-flamenguista Fio Maravilha, “só não entrou de bola e tudo porque teve humildade”.
Mais que descrever com palavras a magnitude desse rei, o recomendável é adquirir o DVD sobre a história dele. Se há um conceito no jornalismo de que uma foto vale por mil palavras, imaginem, então, um filme.
Se Pelé foi o ‘papa’ da bola, fora dos gramados prognosticou trapalhadas desnecessárias. Descumpriu a promessa de programar um jogo comemorativo aos seus 60 anos de idade, quando atuaria cerca de meio tempo. Quando trabalhou como comentarista da TV Globo, na década de 90, costumava alfinetava personagens famosos no futebol. Conclusão: quem fala o quer, ouve aquilo que não quer. E Romário respondeu críticas em tom agressivo: “O Pelé de boca fechada é um poeta. Quando ele abre a boca sai merda”.
Fora dos casamentos Pelé teve mais duas filhas: Flávia Kurtz e Sandra Regina Arantes do Nascimento Felinto. A rigor, a Justiça o obrigou a reconhecer a paternidade de Sandra em 1996, em processo que tramitou desde 1991. Sandra, vereadora em Santos, morreu no dia 18 de outubro de 2006, vítima de desdobramentos de um câncer de mama.
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